Mulheres jovens estão começando a deixar os homens para trás

Mulheres jovens estão começando a deixar os homens para trás

O déficit educacional dos homens está se tornando cada vez mais uma lacuna em termos de emprego, rendimentos e resultados, com repercussões significativas

Por John Burn-Murdoch – Financial Times

Traduzido por Samara Leonel – Jornal Valor Econômico

29/09/2024

Em todo o mundo desenvolvido, garotas e jovens mulheres vêm ultrapassando garotos e jovens na educação há várias décadas, com uma proporção muito maior de mulheres frequentando a universidade em comparação com seus colegas.

Essa tendência tem sido tratada mais como um fato a ser observado do que como uma questão sobre a qual se precise agir. Os diversos domínios em que as mulheres ainda estão em desvantagem em relação aos homens levaram, compreensivelmente, a esforços para alcançar a igualdade de gênero, se tornando sinônimo de avanço de oportunidades e resultados das mulheres. Os homens sempre tiveram melhores resultados no mercado de trabalho de qualquer maneira, e se as mulheres superam os homens na educação, isso ajuda a reduzir a vantagem masculina geral — ou assim se pensava.

O problema com essa abordagem é que, em um número crescente de países, já superamos a fase de redução das disparidades nos resultados socioeconômicos, e agora há uma nova e crescente lacuna no sentido oposto.

Muito menos reconhecido do que a crescente disparidade no ensino superior é o fato de que, em vários países ricos, as jovens agora são mais propensas a estar empregadas do que os homens jovens. O Reino Unido entrou nesse grupo em 2020, e a liderança feminina na taxa de emprego entre os jovens de 20 a 24 anos se ampliou para três pontos percentuais. A virada ainda não ocorreu nos Estados Unidos, mas o déficit na taxa de emprego das jovens caiu de quase 10 pontos percentuais em 2006 para apenas um ponto no ano passado.

Em outras palavras, o Reino Unido faz parte de uma lista crescente de países em que as respostas para “Quem está fazendo a maior parte do trabalho na criação de filhos?”, “Quem está focado em obter uma boa educação?” e “Quem está trabalhando para trazer uma boa renda para casa?” são todas: “Mulheres”.

Se isso fosse simplesmente um caso de progresso das mulheres, seria algo a ser celebrado — e, certamente, esse lado da história merece comemoração —, mas uma minoria substancial de jovens homens está, ativamente, retrocedendo, com um número crescente deles cada vez mais desconectado da sociedade.

Em vários países ricos, as jovens agora são mais propensas a estar empregadas do que os homens jovens — Foto: Pexels

No mundo desenvolvido, a parcela de jovens homens que não estão nem estudando, nem trabalhando, nem procurando emprego, vem subindo de forma constante há décadas. Em países como o Reino Unido, França, Espanha e Canadá, agora há mais jovens homens do que mulheres, de fato, fora da economia – pela primeira vez na história. Ao contrário das mulheres, esses homens geralmente não estão ocupados cuidando de outros membros da família. Eles estão à deriva e provavelmente serão aqueles que precisarão de cuidados. Mais de 80% desse grupo no Reino Unido relatam problemas de saúde de longo prazo.

Talvez o mais impressionante de tudo seja que 2022 foi o primeiro ano em que a jovem média no Reino Unido teve uma renda maior do que seu colega homem. Isso se deve, em grande parte, ao fato de as mulheres serem muito mais propensas a ter um diploma e, portanto, o salário de graduado que o acompanha, mas também à deterioração das perspectivas dos homens não graduados, que passaram de ganhar 57% a mais do que as mulheres não graduadas em 1991, para 10% a menos em 2022.

É semelhante nos Estados Unidos, onde mulheres jovens sem faculdade e pessoas com diploma universitário de ambos os sexos tiveram suas rendas mantidas ou aumentadas, mas os homens sem faculdade despencaram no quesito distribuição de renda.

Embora a mudança na composição desempenhe um papel aqui — os não graduados de hoje são um grupo muito diferente dos não graduados de 30 anos atrás —, isso não explica as trajetórias tão diferentes entre homens e mulheres sem graduação, que se devem mais à transição contínua de uma economia onde trabalhos que exigiam mãos, corações e cabeças eram abundantes e relativamente remunerados, para uma economia onde os últimos dominam.

Mas, enquanto o discurso e a política permanecem focados em outras questões, as repercussões dessas mudanças tectônicas estão ocorrendo silenciosamente em todos os lugares.

Com trajetórias socioeconômicas indo em direções diferentes, uma minoria crescente de jovens homens e mulheres não compartilha mais as mesmas visões. O apoio dos jovens homens aos partidos populistas de direita está aumentando, especialmente entre aqueles sem empregos e diplomas. Agitações violentas são mais prováveis à medida que cresce o número de jovens homens com pouco envolvimento com a sociedade ou com seu futuro.

E a formação de relacionamentos também está sendo afetada, à medida que um número crescente de mulheres graduadas descobre uma escassez de homens com equivalentes socioeconômicos, e, ao mesmo tempo, tem menos necessidade do que nunca de se unir a um homem para obter apoio financeiro.

Reverter o declínio entre os homens sem graduação não será fácil, nem deve se tornar um jogo de soma zero com as jovens mulheres, mas é um desafio essencial para as próximas décadas e trará benefícios positivos que atingirão muito além daqueles diretamente afetados.

Leia também: Pesquisa revela como homens e mulheres veem a liderança feminina nas empresas. Há diferenças

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *