Maioria das empresas não se preocupa com planos de sucessão, indica pesquisa

Maioria das empresas não se preocupa com planos de sucessão, indica pesquisa

Estudo com 161 gestores no Brasil aponta que apenas 8,1% das companhias têm diretrizes formais de substituição de lideranças; do total pesquisado, 58% são grupos de controle familiar

Por Jacilio Saraiva, Jornal Valor Econômico

07/11/2025

planejamento sucessório não é prioridade para a maioria das empresas no Brasil. Apenas 8,1% afirmam ter um plano de sucessão formal implementado de forma consistente e acompanhado pelas lideranças; 16,1% até possuem diretrizes, mas com implementação parcial ou inconsistente, enquanto 46,6% contam apenas com sucessores mapeados, mas sem um programa estruturado – já 29,2% não mantêm qualquer política ou mapeamento sobre a substituição das chefias.

Os números fazem parte de um novo estudo do Evermonte Institute, braço de pesquisas da consultoria de recrutamento Evermonte Executive & Board Search, obtido pelo Valor. O levantamento foi feito entre junho e agosto de 2025 com 161 executivos, sendo a maioria (40,1%) diretores ou vice-presidentes de empresas com até R$ 500 milhões de receita anual (49,1%), entre R$ 500 milhões e R$ 2 bilhões (27,9%) e acima de R$ 2 bilhões (23%), de setores como bens de consumo (11,2%) e serviços financeiros (8,1%). Do total de participantes, a maior parte (58%) atua em organizações de origem familiar.

“Não houve grandes mudanças sobre o tema desde a primeira vez que conduzimos a mesma pesquisa, em 2023”, analisa Guilherme Abdala, co-fundador da Evermonte Executive & Board Search. A importância atribuída à questão continua alta e os índices de implementação [de programas] se mantêm baixos – somente 31,7% dos respondentes classificam o planejamento sucessório como muito importante, revela.

“Há um anseio em trazer a pauta para a mesa, mas ela permanece no campo das discussões”, acrescenta. “O foco das empresas está em demandas de curto prazo, em urgências cotidianas que continuam nublando a imprescindibilidade do planejamento para o futuro.”

O que impressiona é que, depois de três anos, a cultura de “apagar incêndios” nos negócios ainda é o principal entrave das estratégias de sucessão, continua o consultor. “No geral, não há grandes limitações orçamentárias. Há falta de priorização”, destaca.

Especialista revela que há um anseio em trazer a pauta da sucessão para a mesa, mas ela permanece no campo das discussões — Foto: Pexels

Entre as corporações dedicadas ao assunto, os critérios mais utilizados para identificar possíveis sucessores são o potencial de liderança (66,5%) e as avaliações de desempenho (62,1%). Em contrapartida, apenas 24,8% das organizações incluem feedbacks de pares e subordinados nos processos de escolha.

“Os sucessores são identificados a partir de critérios individuais, sem considerar percepções coletivas e, muitas vezes, focando em ‘skills’ técnicas [49,7%], sem considerar os aspectos comportamentais, imprescindíveis em termos de sucessão”, avalia.

O mapeamento sinaliza que os principais responsáveis pelo desenvolvimento dos projetos de sucessão nas empresas são a diretoria executiva (55,9%), o CEO (52,8%), a equipe de RH (41%) e o conselho (31,7%). “Há necessidade de uma maior integração entre gestão, conselho e RH, para que a sucessão se consolide como um processo sistêmico e sustentável no longo prazo”, aconselha o especialista.

Além disso, os principais entraves para a construção de planos sólidos de renovação das lideranças estão ligados à cultura organizacional (34,2%), foco no curto prazo (26,7%) e à falta de priorização do tema entre as corporações (24,2%). “Em muitos casos, a sucessão é tratada como um tema sensível, associado a disputas de poder e, por isso, adiada indefinidamente.”

Para agravar o cenário, os dados mostram que a agenda de diversidade e inclusão tem uma baixa aderência na substituição dos gestores: 45,3% não consideram o tema; 27,3% o reconhecem, mas sem integrá-lo à discussão; 20,5% adotam práticas parciais sobre o assunto e somente 6,8% o incorporam de maneira consistente aos projetos sucessórios.

“O resultado é a manutenção de pipelines homogêneos e a perda de oportunidades de fortalecer a liderança com perspectivas diversas e alinhadas às demandas contemporâneas de legitimidade e competitividade”, avalia.

Diante do resultado do estudo, Abdala lista cinco caminhos para a criação de políticas de sucessão nas empresas. São eles:

  1. Investir em prevenção

Criar um comitê de pessoas com uma agenda mensal e mapa de risco por função crítica é o primeiro passo para antecipar movimentos e evitar rupturas na liderança.

  1. Formalizar iniciativas

Publicar uma política de sucessão clara na empresa, com revisões trimestrais, institucionaliza o processo de substituição e reduz a dependência de decisões pontuais.

  1. Basear decisões em dados

“Rodar” avaliações de 360 graus, definir indicadores e associar metas à remuneração variável traz objetividade à gestão de sucessores.

  1. Conectar a sucessão à estratégia

Empresas maduras integram o tema ao planejamento estratégico e financeiro, vinculando cenários de continuidade aos resultados das unidades de negócios.

  1. Valorizar a diversidade

O estudo reforça a necessidade de metas de inclusão no pipeline sucessório, acompanhadas de ações de governança e de relatórios públicos de avanço.

Leia também: As principais estratégias e ações para desenvolver a futura liderança

 

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